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Uma bela Encíclica

10 jul

Acabei de ler a última encíclica do papa Bento XVI, Caritas in Veritate. É um belo texto, cheio de geniais insights de Sua Santidade sobre a sociedade moderna. Recomendo que todos leiam. Durante os próximos dia postarei alguns trechos da encíclica que achei mais interessantes, mas, em razão algumas interpretações errôneas do texto que apareceram na imprensa e na internet, considero importante fazer alguns comentários sobre ela.

Em primeiro lugar, para se interpretar corretamente a encíclica (assim como qualquer documento eclesiástico) é necessário se afastar de qualquer tentativa de transformá-la ou lê-la como um manifesto político-ideoloógico. Esse lembrete é importante porque nos últimos dias li inúmeros textos e comentários sobre o documento papal que mostraram um completo e absurdo desconhecimento sobre o que o papa escreveu. A leitura político-ideológico chegou a níveis tão graves que num desses artigos o papa foi acusado de apoiar o desenvolvimentismo (corrente de pensamento econômico esquerdista)!

Algumas palavras de Bento XVI no nº 9 da encíclica já deveriam servir de alerta contra quem quer rebaixar à Igreja a um movimento político-ideológico:A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende « de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral.

Também é importante deixar claro que o conteúdo da encíclica não apresenta nenhuma novidade em relação à Doutrina Social da Igreja, ensinando o que esta sempre ensinou. Achar o contrário é mostrar que desconhecimento a respeito dos ensinamentos sociais da Igreja

Como já publicado neste blog, é necessário deixar claro que o papa não apoia a ONU , como muitas pessoas disseram nos últimos dias. Bento XVI ensina, no nº 67 da encíclica, sobre a necessidade de se criar uma autoridade mundial, baseado nos princípios da subsidiariedade e na solidariedade, tudo o que a ONU não é. Em outro momento o papa critica veemente as organizações internacionais que querem impor uma agenda cultural (casamento gay, políticas antinatalistas, aborto e etc). Falso, portanto, dizer que o papa apoia a ONU.

Ao falar sobre a crise econômica Sua Santidade não entra numa discussão meramente economicista, culpando o capitalismo, como faz a esquerda, ou o intervencionismo estatal, como faz a direita, mas procura lançar uma luz sobre as causas morais da crise. Bento XVI lembra uma verdade esquecida no mundo de hoje: a economia, como qualquer ato humano, não pode ser desligada da moral.

Ainda no campo econômico o papa pede que os países ricos não criem barreiras contra as exportações dos países pobres, especialmente em relação aos produtos agrícolas. Por fim, ele também pede redistribuição de renda. Não, Bento XVI não é um político esquerdista e o lucro não é condenável em si mesmo. Ocorre que o homem é apenas um gerente que administra os bens que Deus lhe confiou. Se não há nada de imoral em aproveitar, honestamente, uma oportunidade de mercado e ficar bilionário, um rico não deve utilizar seu dinheiro apenas para seu próprio bem.

Mas se Sua Santidade fala em redistribuição de renda, ele afirma que é necessário que isso se faça de uma nova maneira, numa espécie de “ensinar a pescar ao invés de dar o peixe,  e pede, também, a reforma das estruturas atuais  destinadas a assistir os necessitados, pois elas acabam consumindo mais dinheiro que o destinado a estes.

O Santo Padre também faz algumas interessantes reflexões sobre a questão ambiental, baseadas, obviamente, na doutrina cristã. O papa pede respeito ao meio-ambiente, mas sem aderir às teses catastróficas em voga atualmente. Com efeito, Bento XVI condena dois tipos de comportamento em relação ao meio-ambiente: um é considerá-lo simplesmente como matéria-prima para a vontade do homem; o outro é defendê-lo em detrimento do homem, numa atitude neopagã. Por fim, o papa afirma que uma sociedade que não respeita a vida humana desde a sua concepção até o seu fim natural também não terá uma visão sadia sobre o meio-ambiete porque as duas coisas estão ligadas.

Por fim, Sua Santidade lembra o perigo do tecnicismo, de se apartar a moral e a ética dos avanços tecnológicos, afirmando que estes não podem dar sentido à vida humana.

A encíclica, obviamente, é bem mais ampla que estes parcos comentários.

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2 Comentários

Publicado por em 10 de julho de 2009 em Bento XVI, Imprensa, Papa

 

2 Respostas para “Uma bela Encíclica

  1. Julie Maria

    17 de julho de 2009 at 14:22

    Legal o seu texto!

    Obrigada

    Julie Maria

     

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