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Entrevista com arcebispo brasileiro acerca da excomunhão de médicos aborteiros

17 jun

Três de junho de 2009 (Notícias Pró-Família) — Nota: A seguinte entrevista com o Arcebispo José Cardoso Sobrinho, de Olinda e Recife, Brasil, foi feita pela jornalista francesa Jeanne Smits. A entrevista apareceu originalmente em francês no jornal Present, e foi republicada no blog dela em inglês. A Sra. Smits concedeu amavelmente a LifeSiteNews permissão para republicar o artigo integralmente.

Pergunta: Como resultado do caso de Recife, o jornal L’Osservatore Romano publicamente rejeitou suas declarações sobre a excomunhão automática daqueles que escolheram o aborto para a pequena menina e o executaram. Desde então, surgiu uma tendência nos meios de comunicação sugerindo que o ensino da Igreja mudou quanto à determinação se o aborto (quando a vida da mãe está em perigo ou em outras circunstâncias particulares) é errado, se é pecado. Por outro lado, as mentiras dos meios de comunicação acerca de pontos importantes do caso têm sido abundantes, embora muitas pessoas tenham expressado admiração por sua atitude. Será que sua Excelência poderia nos dizer o que realmente aconteceu?

Resposta: Primeiramente quero expressar minha gratidão muito profunda a todos aqueles que expressaram apoio. Recebi centenas de mensagens de solidariedade do mundo todo: padres, bispos, leigos, aprovando minha decisão de falar claramente acerca da lei da Igreja. Recebi o prêmio Von Galen de Human Life International, e bem recentemente a Associação Pró-Vida de São Paulo também me designou seu prêmio. Graças a Deus, muitas pessoas aprovam o que fiz.

Há algumas pessoas, porém, na França, no Canadá… inclusive bispos, que escreveram artigos ou cartas públicas para declarar sua desaprovação. Num espírito de diálogo, gostaria de dizer que é errado dizer que nós — isto é, a mim mesmo e o padre paroquial da menina grávida — não demos a ela a atenção especial de que ela necessitava. Demos-lhe toda atenção e cuidado. O que infelizmente foi publicado não é simplesmente verdade: fizemos tudo o que estava dentro de nossa capacidade para ajudar.

Alguns, quando falam sobre a publicidade em torno desse caso, afirmam que não era “oportuno” falar de excomunhão. Não concordo com esse ponto de vista. Eles estavam praticamente me dizendo que deveríamos ter esquecido o que a Lei Canônica diz acerca de excomunhão. Minha opinião é diferente. Digo que essa lei existe para o bem da Igreja. E que não fui eu quem excomungou ninguém, como repeti inúmeras vezes. Aqueles que me acusam dizem que fui eu quem “excomungou”, e isso é totalmente falso; eu simplesmente atrai a atenção para uma lei que existe na Igreja, cânon 1398. E pergunto: é adequado permanecer em silêncio, como muitos afirmam? Teria sido melhor que eu não falasse nada sobre excomunhão? Bem, respondo que não concordo. É uma lei da Igreja para o bem da Igreja. Existiu durante muitos séculos. O novo Código de Lei Canônica, promulgado em 1983 pelo Servo de Deus Papa João Paulo 2, reitera essa lei. Da mesma forma, o Catecismo da Igreja Católica, publicado pelo mesmo papa em 1992, repete e comenta acerca dessa lei. Teria sido melhor ficar em silêncio? Bem, em minha opinião, é da mais elevada importância atrair a atenção de todos e especialmente os fiéis católicos, para a seriedade do crime do aborto. É por esse motivo que a lei existe.

Nós, em nossa diocese, temos recebido muitas mensagens de muitas pessoas que me disseram: “Agora, entendo melhor a gravidade do aborto, e mudarei minha consciência”. Em minha opinião, o ato de atrair atenção para a existência dessa excomunhão produz um benefício espiritual entre os fiéis católicos, mas também entre outros, que, aparentemente, de forma sossegada se submetem a abortos e que, creio eu de agora em diante, pesará na consciência deles a gravidade do que estão fazendo. E essa é a meta final dessa lei da Igreja, dessa penalidade de excomunhão: é medicinal. É um remédio para a conversão de todos. Para a pessoa que incorre nele, é um meio de fazê-lo entender que ele terá de responder a seu ato diante de Deus. Com a Igreja, desejamos que cada pessoa individualmente, mesma aqueles que seguem a vereda do erro, possa viver de acordo com a lei de Deus. Não queremos a condenação eterna de ninguém. Em minha opinião, silêncio — não falado de excomunhão — causaria grave prejuízo à Igreja.

Mas há algo mais sério. Tenho a impressão de que entre aqueles que falaram contra mim, alguns estão praticamente insinuando que seria melhor ab-rogar o cânon sobre excomunhão. Mas a Igreja não crê nisso. A Igreja sustenta essa lei, porque é necessária para o bem comum da Igreja, quando o assunto é ofensas bem graves, que há uma lei clara, e que essa lei seja aplicada. Esses são princípios de grande importância. Para mim, o silêncio equivaleria à cumplicidade. Sabemos — todos os meios de comunicação internacionais dizem isso — que há até 50 milhões de abortos anuais, a nível mundial. Aqui no Brasil, o número citado é cerca de um milhão anualmente. Em consciência, estou certo de que é necessário falar, despertar a consciência das pessoas, porque o silêncio pode ser interpretado como aprovação.

Pergunta: Recentemente entrevistei o Prof. Josef Seifert que assumiu sua defesa nos meios de comunicação. Ele descreveu a excomunhão como um ato de caridade para com as pessoas que incorrem nela, na medida em que as faz compreender o prejuízo feito à vida espiritual delas. Você usaria essa expressão?

Resposta: É um remédio espiritual. A Igreja recebeu uma missão, que é levar todos os homens à salvação eterna e fazê-los viver na graça de Deus. É fato que há pessoas que realizam abortos com a mente tranqüila e que dizem com a mesma calma que continuarão. Nós, como católicos, e acima de tudo como pastores da Igreja, não podemos ficar em silêncio, como se estivesse tudo bem. É por isso que repito que não abrir a boca, não atrair a atenção para a gravidade, para a seriedade do problema, e acima de tudo para o fato de que a Igreja, para o bem comum, aplica essa penalidade, seria cumplicidade. Equivaleria praticamente a aceitar essa grave situação.

Aqui no Brasil, estamos no processo de preparar uma lei para legalizar o aborto. Nós católicos temos de falar primeiro sobre responsabilidade moral. Evidentemente, há católicos em nosso Parlamento que defendem a lei de Deus, mas há outros que defendem esse projeto de lei, começando com o presidente da República. Não podemos permanecer de boca fechada!

Pergunta: Quando você falou da excomunhão automática da mãe da menina grávida e dos médicos que tomaram parte no aborto, você fez isso antes ou depois que havia sido cometido?

Resposta: Conversei sobre isso antes e depois do aborto, conforme a nota da arquidiocese de Recife para o monsenhor Fisichella declarava claramente: em 3 de março, no dia antes do aborto, eu disse aos jornalistas acerca da “penalidade medicinal” do cânon 1398. Infelizmente, o artigo do monsenhor Fisichella declara que a primeira vez que conversei com a imprensa sobre esse caso de uma menina grávida de nove anos atraiu atenção geral dos meios de comunicação. Acima de tudo, fizemos tudo o que dependia de nós para salvar três vidas: não só a vida da menininha, mas as três vidas. Quando o aborto finalmente ocorreu, eu simplesmente recordei mais uma vez a lei da Igreja. Qualquer pessoa que — em plena consciência, é claro — comete um aborto é excomungada. Esse foi o sentido da minha declaração.

Pergunta: É verdade que a menininha estava raquítica ou que ela estava sofrendo de subnutrição?

Resposta: Não, de forma alguma! A menina grávida, mesmo quando foi levada ao hospital, estava vivendo com outras crianças com quem brincava como uma criança normal.

Pergunta: Ela sabia que estava grávida, e que ela estava esperando dois filhos?

Resposta: Claro que sim! Não só ela sabia, mas ela tinha até dito que um dos bebês preencheria o lugar de um membro da sua família, e o outro para que ela brincasse junto. Ficamos sabendo mais tarde que havia duas menininhas.

Pergunta: Disseram que o pai legítimo da menininha, que estava contra o aborto, é evangélico. Isso é verdade?

Resposta: Sim, é verdade. Ele não é católico. Mas ele estava conosco totalmente. Eu o hospedei na minha casa um dia inteiro; ele não aceitou o aborto.

Pergunta: Deve ter havido muita emoção…

Resposta: Sim. Ele veio de sua cidadezinha de Alagoinha que fica a 230 km daqui. Ele ficou conosco; comigo, com o Pe. Edson Rodriguez que é seu padre paroquial, com meu advogado, com o presidente dos tribunais de justiça daqui para ver se era possível deter o aborto por meios legais. Mas como você sabe o aborto foi realizado depois que a criança foi levada sem nosso conhecimento para um “centro de saúde” que habitualmente realiza abortos.

Pergunta: Houve alguma demonstração de rua contra o aborto fora da clínica onde a menininha foi originalmente colocada?

Resposta: Nenhuma. Mas nos jornais e na televisão havia muita pressão em favor do aborto, e como você sabe várias organizações “feministas” intervieram para obter o aborto.

Pergunta: A menininha estava em perigo de morrer?

Resposta: Não, jamais. O médico declarou isso para mim de forma muitíssimo explícita.

Pergunta: Mas se ela estivesse em perigo de morrer, o aborto teria sido justificado?

Resposta: Essa possibilidade foi bem claramente antecipada pelos médicos. Eles esperavam que quando chegassem os seis meses de gravidez, seria possível fazer uma operação cesariana. Mas como os grupos “feministas” queriam um aborto, eles vieram ao IMIP (Instituto Materno-Infantil de Pernambuco) onde a criança estava hospitalizada a fim de levá-la a outro centro de saúde onde o aborto foi realizado dentro de horas após sua chegada. Eles a levaram de noite e às 10h do dia seguinte tudo estava terminado. Sabe-se bem aqui que esse centro de saúde é habitualmente dedicado a realizar abortos. É muito importante recordar que os médicos que realizaram o aborto declararam que eles vinham realizando abortos por um longo tempo, e com “orgulho” disso. E eles afirmam que eles continuarão. Não podemos ficar em silêncio em face disso. E há tanto menos razão para dizer que havia “dúvida” nesse caso, como escreve infelizmente o monsenhor Fisichella. Ele disse que ninguém sabe se o médico, no momento da ação, não tinha “dúvidas” do que ele deveria ou não deveria fazer. Sabemos que o oposto é verdade; esses médicos declararam publicamente que praticam aborto como parte de suas vidas e não têm nenhuma “dúvida” do assunto. Eles querem continuar.

É claro que há outros médicos católicos aqui que dizem, por outro lado, que eles não realizam aborto algum porque crêem em Deus e respeitam Sua lei.

Pergunta: Sua Excelência teria reagido de forma diferente se a menininha estivesse realmente em perigo de morrer?

Resposta: Não, de forma alguma. Sabemos que mesmo quando há perigo de morte o aborto jamais é permitido. Essa é a lei de Deus, como a Igreja a proclama. Mesmo em face desse perigo, deveria-se aguardar a evolução natural da situação, tentando todo o tempo salvar as três vidas. Esse é o princípio fundamental da lei de Deus e também da lei natural; o fim não justifica os meios. Meu objetivo pode ser excelente: salvar a vida da menina grávida. Mas os meios para alcançar esse fim jamais podem suprimir todas as vidas inocentes. Esse é o princípio da lei natural que a razão humana pode entender.

Para dar um exemplo que é fácil entender aqui no Brasil: se eu quero achar comida para os pobres — e há tantos aqui — isso não me dá autorização para assaltar um banco, tomar o dinheiro de outras pessoas para fazer um trabalho de caridade. E como minha equipe de assessores disse — o vigário geral, meu advogado católico e os outros signatários do texto sobre o qual eu estava conversando antes — não nos cabe mudar a lei de Deus, ainda que a opinião pública esteja seguindo outra vereda. Nossa missão, nossa missão tão importante é proclamá-la para o benefício de todos, mesmo em casos como esse quando não é fácil.

Deve-se entender: desde os primeiros séculos da igreja, tem havido leis sobre excomunhão na Igreja. Elas buscam proteger o bem comum da sociedade eclesiástica: é por essa razão que precisamos de uma lei canônica; o aspecto jurídico da Igreja como uma sociedade humana é indispensável. Não podemos simplesmente esperar que cada pessoa siga sua consciência. Evidentemente, a Igreja deve primeiramente cuidar da vida espiritual de cada pessoa, mas o bem comum, no sentido técnico, é também muito importante: consiste num ambiente adequado em que cada um possa viver pacificamente. As penas previstas no Código da Lei Canônica também têm esta meta.

Pergunta: Você já ouviu o que está sendo dito sobre o monsenhor Fisichella: que ele escreveu sua nota enquanto estava sendo “iludido” e “forçado” a fazer isso?

Reposta: Essa informação me chegou indiretamente. Certas pessoas no Brasil, inclusive bispos, telefonaram para o monsenhor Fisichella e dizem que a resposta dele foi: que ele seguiu as indicações de superiores hierárquicos.

O fato é que hoje a imprensa internacional chegou ao ponto em que está dizendo que a Igreja concorda com abortos “terapêuticos”. Isso me parece uma situação bem grave: como podemos lutar contra isso?

É nossa missão sempre proclamar a lei de Deus. Você sabe que na África, o Papa Bento falou claramente sobre questões morais e que a imprensa, particularmente da França, não aceitou isso. Mas essa é e permanece a missão da Igreja: não podemos permanecer em silêncio por razões de aceitabilidade social. Dentro da liberdade democrática, que é uma boa coisa, tentar legitimar, mesmo dentro dos limites da lei, costumes ou ações que vão contra a lei de Deus seria abusivo. Nossa missão, a missão da Igreja, é proclamar a lei de Deus e o Evangelho de Jesus Cristo, ainda que não seja fácil.

Pergunta: Suas relações com seus colegas bispos são boas?

Resposta: Muito boas. Duas semanas atrás estávamos todos na assembléia nacional dos bispos em São Paulo; todos os bispos com quem conversei aprovaram minha posição. Nenhum foi contra mim. Por outro lado, li os textos de vários bispos franceses. Parece-me que eles não estavam cientes de todas as circunstâncias. Eles leram o artigo do Monsenhor Fisichella e creram que isso é a verdade.

Pergunta: Talvez agora eles estejam numa posição de compreender que reagiram a falsas informações. Mas como consertar?

Resposta: Parece-me importante que o jornal L’Osservatore Romano deveria publicar minha resposta. Isso é o que estamos tentando obter, como vimos tentando desde o começo. Enviamos para Roma a resposta da arquidiocese ao artigo do Monsenhor Fisichella. É um direito natural poder responder se alguém vem publicando informações falsas, quem sabe por qual motivo: os leitores do Osservatore deveriam também estar numa posição de saber o outro ponto de vista.

Quanto a mim mesmo, minha consciência está em paz. Eu não esperava nem desejava essas repercussões que ocorreram numa dimensão internacional. Repito que o bem comum da Igreja exige essas leis latae sententiae, que servem como avisos permanentes e que ela nunca abolirá. Ela sempre condenou o aborto e ela sempre explicou o motivo: o aborto não só prejudica a pessoa, mas também prejudica a sociedade. Hoje, repito que há 1 milhão de abortos anualmente no Brasil, 50 milhões no mundo inteiro; nosso silêncio equivaleria a consentimento.

Obrigado por me permitir apresentar esses pontos que me parecem importantes para o bem espiritual das almas. Por favor, diga aos leitores de Present que eu de boa vontade lhes envio minha bênção.

Traduzido por Julio Severo: www.juliosevero.com

Veja o artigo original em inglês: http://www.lifesitenews.com/ldn/2009/jun/09060308.html

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