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Abusos na Irlanda

12 jun

A reputação da Igreja manchada


Estamos assistindo, desde há tempos, a um crescente assanhamento da parte da mídia contra a reputação – contra a honra – da Igreja Católica.

Cada novo escândalo, objetivo ou inflacionado, envolvendo padres ou bispos, constitui um prato forte, que põe água na boca de muitos profissionais da opinião pública.

Agora, nesta segunda metade de maio de 2009, estamos sob o bombardeio das reportagens e charges, publicadas com clarins e tambores (manchetes de primeira página, páginas inteiras de jornal) sobre os escândalos de religiosos na Irlanda.

Infelizmente, os casos reais de abuso sexual de crianças ou adolescentes, acontecidos na Irlanda ao longo de cem anos (durante todo o século XX), mesmo que tenham sido bem menos numerosos do que fazem supor certas manchetes, são inescusáveis. Nada pode justificar nem atenuar crimes abomináveis como o estupro ou a pedofilia. E todo católico, a começar pelo clero, deveria lembrar, “com temor e tremor”, as palavras de Jesus Cristo: Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! … Quem provocar a queda de um só destes pequenos que crêem em mim, melhor seria que lhe amarrassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem ao mar (Mt 18,6.7). Um só caso de pedofilia, praticado na Igreja Católica por um padre, um religioso ou uma religiosa, é sempre demais, é inqualificável.


Perplexidades e perguntas

Acontece, porém, que – mesmo sabendo que até a hierarquia eclesiástica da Irlanda tem reconhecido a existência desses abusos, tem pedido perdão e até tem agradecido a oportunidade dada pelas denúncias para, a partir de agora, evitar com maior cuidado que os abusos se repitam – ficam pairando no ar perguntas sem aparente resposta:

1) Por que a manchete de primeira página e a de página inteira da reportagem do Estado de 21 de maio, estão redigidas de molde a “sugerir” ao leitor desavisado que, na Irlanda, ao longo do século XX, tem havido 35.000 casos de abuso sexual de padres ou freiras contra crianças? A verdade é que, lendo a reportagem, tudo indica que a palavra “abuso” é aplicada, sobretudo, a casos de castigos infligidos a alunos em escolas, orfanatos, recolhimentos de menores de rua, etc. Castigos certamente excessivos, mas que eram os habituais em todo o sistema pedagógico britânico dos anos 1900 e seguintes, e não eram nem de longe exclusivos de instituições católicas (Leiam-se os textos autobiográficos de Churchill, C.S. Lewis, Evelyn Waugh, e, antes, Dickens, etc.). Não será que há interesse em confundir e “demonizar” tudo, quando se trata da Igreja?

2) Por que, entre os milhares de “abusos” mencionados, foram incluídos os casos de vários velhos de 80 anos, que denunciaram castigos recebidos na escola quando eram moleques, com o fito de postular, e obter, uma polpuda indenização. Terá sido isso, por acaso, uma desculpa “papa-dinheiro”? Como é que os octogenários poderão provar de forma fidedigna que bateram neles em 1930 ou 1932?

3) Por que – e este é o ponto mais importante – a mídia não parece muito empenhada em denunciar e combater com todas as suas armas a imensa rede de pedofilia existente na Internet, que corrompe mais de 10.000 crianças e adolescentes por mês, só no Brasil? Nem vale a pena fazer o cálculo da cifra que isso daria em 100 anos. Trata-se, portanto, de algo que desestrutura e destrói crianças numa proporção imensamente maior que a da Irlanda. E isso, aqui no Brasil, hoje e agora. Por que, então, aparentemente, essa monstruosidade não preocupa tanto a mídia?

Que explicação pode ter tal omissão? Será por acaso (é difícil afirmá-lo, não há dados suficientes) porque, nesse verdadeiro oceano de corrupção de menores da Internet, estão comprometidos alguns figurões da política (como a imprensa tem mencionado), e outras autoridades, e alguns órgãos e elementos da própria mídia? Quem sabe não é por isso… Mas, quem sabe, pode ser que sim.

4) Acrescentemos a essas perguntas, uma última pergunta “ingênua”: É sabido que a Igreja católica é hoje, no Brasil, o principal obstáculo para a rápida aprovação do aborto (até o nono mês), do casamento homossexual, da adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo (ou do mesmo gênero), etc. Será este, porventura, um motivo determinante para que tantos órgãos da mídia queiram desmoralizar e demolir a Igreja? Deixo a resposta com o leitor.


Uma estatística muito surpreendente

Dentro do mesmo tema doloroso da pedofilia e demais abusos sexuais contra menores, é sumamente esclarecedora a reportagem publicada no mesmo Estado de São Paulo, de 18/5/09, à página C4. Como todo grande jornal, o Estadão tem coisas excelentes e coisas criticáveis. Esta é excelente. Intitula-se «Triplica o número de vítimas de abuso atendidas nas zonas sul e leste», e acrescenta ao título a manchete «Desde outubro, média de novos casos passou de dez por mês para um por dia». Mesmo que o estudo se cinja às zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo, por somarem milhões de habitantes, não deixa de ser uma amostra muito expressiva.

Trata-se de uma pesquisa e uma análise realizada por várias ONGS de provada seriedade, que têm como porta-voz a pedagoga Ana Cristina Silva, coordenadora da Rede Criança de Combate à violência doméstica. Fala a pedagoga do alarmante crescimento da violência sexual contra crianças, inclusive de 2 ou 3 anos de idade. Aponta como “novidade desconcertante” o fato de que “pais biológicos são maioria entre agressores e, agora, avós também começam a aparecer neste grupo”. “ Toda sedução e uso de crianças para prazer sexual adulto é devastador à infância”.

A professora Ana Cristina apresenta também, na reportagem, uma tabela dos maiores agressores sexuais de crianças, elencados pela ordem de maior a menor número de crimes comprovados que cometeram:

1º. ……………………….Pai

2º. ……………………… Padrasto

3º. ……………………… Mãe

4º. ……………………… Avô

5º. …………………….. Avó

6º. ……………………..Tio

7º. ……………………..Desconhecidos


Aqui, sem dúvida, há matéria para uma boa reflexão, e para a mobilização da mídia e das autoridades competentes. É um drama gravíssimo e urgente, diante do qual não se podem fechar os olhos, começando por perguntar-se quais são as causas dessa crescente sexualização doentia da nossa sociedade, mesmo no seio das famílias. A mídia terá a ver algo com isso?

Para finalizar, uma derradeira pergunta: Já repararam que, no elenco da Rede Criança, não aparece nenhum padre e nenhuma freira? Já repararam que todos ou a quase totalidade dos agressores sexuais são casados? Por que então o empenho de grande parte dos meios de comunicação em fazer crer que os principais protagonistas de abusos sexuais são padres, e em atribuir a causa dos crimes ao seu compromisso de celibato? Não parece que podemos dizer, arremedando Hamlet, que “algo cheira a podre no Reino da Mídia”?


Pe. Francisco Faus

Fonte: Padre Francisco Faus

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Publicado por em 12 de junho de 2009 em Imprensa

 

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