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O Tríduo Pascal

09 abr

O blog entra de recesso durante o Tríduo Pascal, deixando a catequese de ontem do papa para reflexão. Seu tema é justamente o Tríduo Pascal:

Queridos irmãos e irmãs:

A Semana Santa, que para nós, cristãos, é a semana mais importante do ano, oferece-nos a oportunidade de submergir-nos nos acontecimentos centrais da Redenção, de reviver o Mistério Pascal, o grande Mistério da fé. A partir de amanhã à tarde, com a Missa in Coena Domini, os solenes ritos litúrgicos nos ajudarão a meditar de modo mais vivo sobre a paixão, morte e ressurreição do Senhor nos dias do Santo Tríduo pascal, eixo de todo o ano litúrgico. Que a graça divina prova abrir nossos corações à compreensão do dom inestimável que é a salvação que o sacrifício de Cristo nos obteve. Encontramos este dom imenso admiravelmente narrado em um célebre hino contido na Carta aos Filipenses (cf. 2, 6-11), que meditamos muitas vezes na Quaresma. O Apóstolo percorre, de um modo tão essencial como eficaz, todo o mistério da história da salvação, assinalando a soberba de Adão que, ainda não sendo Deus, queria ser como Deus. E contrapõe a esta soberba do primeiro homem, que todos nós sentimos um pouco em nosso ser, a humildade do verdadeiro Filho de Deus que, convertendo-se em homem, não hesitou em tomar sobre si as fraquezas do ser humano, exceto o pecado, e se adentrou até a profundidade da morte. A esta descida na última profundidade da paixão e da morte segue depois a exaltação, a verdadeira glória do amor que foi até o final. E por isso é justo – como diz São Paulo – que «ao nome de Jesus, todo joelho se dobre, no céu, na terra e no abismo, e toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor!» (2, 10-11). São Paulo faz referência com estas palavras a uma profecia de Isaías onde Deus diz: Eu sou o Senhor, que todo joelho se dobre diante de mim, nos céus e na terra (cf. Is 45, 23). Isso – diz São Paulo – vale para Jesus Cristo. Ele realmente, em sua humildade, na verdadeira grandeza de seu amor, é o Senhor do mundo e diante d’Ele realmente todo joelho se dobra.

Que maravilhoso, e ao mesmo tempo surpreendente, é este mistério! Nunca poderemos meditar suficientemente nesta realidade. Jesus, ainda sendo Deus, não quis fazer de suas prerrogativas divinas uma posse exclusiva; nem quis utilizar seu ser Deus, sua dignidade gloriosa e seu poder, como instrumento de triunfo e sinal de distância de nós. Ao contrário, «despojou-se de si mesmo», assumindo a miserável e frágil condição humana – Paulo usa, ao respeito, um verbo grego muito explícito para indicar a kénosis, este rebaixamento de Jesus. A forma (morphé) divina se escondeu em Cristo sob a forma humana, ou seja, sob nossa realidade marcada pelo sofrimento, pela pobreza, por nossos limites humanos e pela morte. Este compartilhar radical e verdadeiramente nossa natureza, em tudo menos no pecado, conduziu-o até essa fronteira que é o sinal de nossa finitude, a morte. Mas tudo isso não foi fruto de um mecanismo obscuro ou de uma fatalidade cega: foi uma mudança, uma livre eleição sua, por generosa adesão ao desenho salvador do Pai. E a morte que enfrentou – acrescenta Paulo – foi a da cruz, a mais humilhante e degradante que se podia imaginar. Tudo isso o Senhor do universo o fez por amor a nós: por amor, quis «despojar-se de si mesmo» e tornar-se nosso irmão; por amor, compartilhou nossa condição, a de todo homem e toda mulher. Escreve a propósito disso um grande testemunho da tradição oriental, Teodoreto de Ciro: «Sendo Deus por natureza e tendo a igualdade a Deus, não considerou isso algo grande, como fazem aqueles que receberam alguma honra por seus méritos, mas, escondendo seus méritos, escolheu a humildade mais profunda e tomou a forma de um ser humano» (Comentário à epistola aos Filipenses 2, 6-7).

Prelúdio do tríduo pascal, que começará amanhã – como dizia – com os sugestivos ritos de meio-dia da Quinta-Feira Santa, é a solene Missa Crismal, que de manhã celebra o bispo com seu presbitério, e no curso da qual se renovam também as promessas sacerdotais pronunciadas no dia da ordenação. É um gesto de grande valor, uma ocasião muito propícia, na qual os sacerdotes reafirmam sua própria fidelidade a Cristo, que os escolheu como ministros seus. Este encontro sacerdotal assume também um significado particular, porque é quase uma preparação para o Ano Santo Sacerdotal, que convoquei com ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura de Ars que começará em 19 de junho próximo. Na Missa Crismal se abençoarão o óleo dos enfermos e o dos catecúmenos, e se consagrará o Crisma, ritos estes com os quais se significa simbolicamente a plenitude do Sacerdócio de Cristo e essa comunhão eclesial que deve animar o povo cristão, reunido para o sacrifício eucarístico e vivificado na unidade pelo dom do Espírito Santo.

Na missa da tarde, chamada in Coena Domini, a Igreja comemora a instituição da Eucaristia, o sacerdócio ministerial e o mandamento novo da caridade, deixado por Jesus aos seus discípulos. São Paulo oferece um dos testemunhos mais antigos do que aconteceu no Cenáculo, a vigília da paixão do Senhor. «Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim» (I Cor 11, 23-25). Palavras cheias de mistério, que manifestam com clareza a vontade de Cristo: sob as espécies do pão e do vinho, Ele se faz presente com seu corpo entregue e com seu sangue derramado. É o sacrifício da nova e definitiva aliança oferecida a todos, sem distinção de etnia e cultura. E deste rito sacramental, que Ele entrega à Igreja como prova suprema de seu amor, Jesus constitui ministros seus discípulos e todos os que prosseguirão seu ministério no curso dos séculos. A Quinta-Feira Santa constitui, portanto, um renovado convite a dar graças a Deus pelo sumo dom da Eucaristia, que é preciso ser acolhido com devoção e adorado com fé viva. Por isso, a Igreja anima, após a celebração da Santa Missa, a velar a presença do Santíssimo Sacramento, recordando a hora triste que Jesus passou em solidão e oração no Getsêmani, antes de ser preso e depois ser condenado à morte.

E chegamos assim na Sexta-Feira Santa, dia da paixão e da crucifixão do Senhor. Cada ano, pondo-nos em silêncio frente a Jesus suspenso no madeiro da cruz, advertimos quão cheias de amor estão as palavras pronunciadas por Ele na vigília, durante a Última Ceia. «Este é meu sangue da aliança, que se derrama por muitos» (Marcos 14, 24). Jesus quis oferecer sua vida em sacrifício para a remissão dos pecados da humanidade. Como diante da Eucaristia, assim diante da paixão e morte de Jesus na Cruz o mistério se faz insondável para a razão. Estamos diante de algo que humanamente poderia parecer absurdo: um Deus que não só se faz homem, com todas as necessidades do homem, não só sofre para salvar o homem, carregando sobre si toda a tragédia da humanidade, mas morre pelo homem.

A morte de Cristo recorda o cúmulo da dor e dos males que pesam sobre a humanidade de todos os tempos: o peso esmagador de nosso morrer, o ódio e a violência que ainda hoje ensanguentam a terra. A paixão do Senhor continua nos sofrimentos dos homens. Como justamente escreve Blaise Pascal, «Jesus estará em agonia até o fim do mundo, não se pode dormir neste tempo» (Pensamentos, 553). Se a Sexta-Feira Santa é um dia cheio de tristeza, é ao mesmo tempo um dia propício para voltar a elevar nossa fé, para reafirmar nossa esperança e o valor de levar, cada um, a cruz com humildade, confiança e abandono em Deus, seguros de seu apoio e de sua vitória. Canta a liturgia deste dia: Oh Crux, ave, spes unica – «Salve, ó cruz, esperança única».

Esta esperança se alimenta no grande silêncio do Sábado Santo, em espera da ressurreição de Jesus. Neste dia, as Igrejas estão nuas e não estão previstos ritos litúrgicos particulares. A Igreja vela em oração como Maria e junto a Maria, compartilhando seus próprios sentimentos de dor e de confiança em Deus. Justamente se recomenda conservar durante toda a jornada um clima orante, favorável à meditação e à reconciliação; anima-se os fiéis a aproximar-se do sacramento da Penitência, para poder participar realmente renovados das Festas Pascais.

O recolhimento e o silêncio do Sábado Santo nos conduzirão à noite à solene Vigilia Pascal, «mãe de todas as vigílias», quando prorromperá em todas as igrejas e comunidades o canto de alegria pela ressurreição de Cristo. Mais uma vez se proclamará a vitória da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte, e a Igreja exultará pelo encontro com seu Senhor. Entraremos assim no clima da Páscoa da Ressurreição.

Queridos irmãos e irmãs, disponhamo-nos a viver intensamente o Tríduo Santo, para ser cada vez mais profundamente partícipes do Mistério de Cristo. Está conosco neste itinerário a Virgem Santa, que acompanhou em silêncio o seu Filho Jesus até o Calvário, tomando parte com pena no seu sacrifício, cooperando assim com o mistério da redenção e convertendo-se em Mãe de todos os crentes (cf. João 19, 25-27). Junto a Ela entraremos no Cenáculo, permaneceremos aos pés da Cruz, velaremos idealmente junto ao Cristo morto, aguardando com esperança o amanhecer do dia radiante da ressurreição. Nesta perspectiva, formulo desde agora a todos vós cordiais augúrios de uma feliz e santa Páscoa, junto com vossas famílias, paróquias e comunidades. Muito obrigado.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.

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Publicado por em 9 de abril de 2009 em Bento XVI, Papa

 

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